A primeira referência histórica à freguesia de Arcozelo conhecida, data de 1113. Em 1518, é referida nos “forais novos”, decretados por D. Manuel I, fazendo parte das terras da Feira, englobando dentro dos seus limites a Igreja de São Paio de Oleiros. Esta Igreja, veio a cair e o culto que se veio a formar em Igreja Paroquial. Atualmente a Igreja Paroquial, situa-se a escassos metros da antiga, em edifício moderno e funcional .
É
no cemitério Paroquial que se encontra a capela dedicada a D. Maria Adelaide
“canonizada” apenas pelo povo, pois a Igreja recusou tal santidade. Senhora
oriunda de Lamego, foi professora do Convento “Corpus Christi” (Gaia), onde
veio a contrair tuberculose, doença que não a inibia de se dedicar à caridade.
A sua morte ocorreu em 1885, permanecendo a memória desta benfeitora no
pensamento de todos.
Em
1916, tendo sido aberta a sua sepultura para se proceder ao levantamento dos
restos mortais, foi com grande espanto que depararam com um corpo incorrupto.
Um brado de estupefação correu a freguesia de lés-a-lés e o povo ocorreu de
imediato ao cemitério para saber do acontecido.
Arcozelo
possui ainda a Igreja Matriz, construída no século XVII, tal como as capelas de
Espírito Santo e da Nossa Senhora da Nazaré. Estas Igrejas adotaram, em regra,
o estilo neo-romântico-bizantino, particularmente evidente no jazido-capela de
Maria Adelaide em algumas casas, palacetes e quintas, em regra pertencentes da
Burguesia.
Das
figuras que se podem destacar nesta freguesia, salientam-se as do Padre Manuel
Nunes de Campos, que nela pregou durante 36 anos, assim como as de Eça de
Queiroz (que passou ferias e viveu na Quinta de Enxomil ou na Granja), e dos
doutores Paulo Falcão, João Grave, Alfredo Cortez, entre outros.
No
século XVII a freguesia foi atingida por uma epidemia muito violenta, ficando a
população reduzida unicamente a 11 habitantes. O seu passado esteve virado para
a agricultura mas, nas últimas décadas, a pouco e pouco foi-se transformando
numa zona industrializada, destacando-se como a serralharia, o têxtil e a
tapeçaria. Hoje em dia são sobretudo famosos os ferros forjados saídos das
oficinas do Corvo. Estes belíssimos trabalhos em ferro, espalham-se por todo o
país e até no estrangeiro.
Na
Aguda, povoado pertencente a Arcozelo várias são as coletividades que nele se
destacam. Citam-se, a Federação do Folclore Português, o Clube Ornitológico
Português, a Estação Litoral e a Sociedade Columbófila. Esta coletividade
dedica-se a criar e a adestrar pombos, especialmente pombos-correios, que
concorrem em numerosas provas.
O
lugar possui ainda o Museu das Pescas, um Aquário Publico e um departamento de
educação e investigação vocacionados para a ecologia marinha, aquacultura e
pescas. No Museu das Pescas elevam-se as artes tradicionais de pesca artesanal
expondo-se nele vários utensílios de pesca, que são comparados com equipamento
de outros países e de outras épocas, como por exemplo: anzóis, fisgas e arpões.
A
Aguda possui um Parque de Turismo inaugurado em 1940, que possuía salas de
cinema, restaurantes, “courts”de ténis e “rink” de patinagem.
A
Gastronomia, parte importante da cultura de Arcozelo apresenta a caldeirada de
peixe e/ou de marisco como pratos tipicamente tradicionais desta freguesia
localizada junto ao mar pelo que estes pratos também constituem uma atracção
para os turistas.
Arcozelo
A freguesia é referida e conhecida,
até meados do século XX, como sendo exclusivamente rural, destacando-se assim a
origem simples da população, que se dedicava, na maioria, à agricultura e a uma
indústria pouco desenvolvida. O apego da população às tradições folclóricas, à
serralharia artística e às rendas de bilros e tapetes de Arraiolos demonstra o
lado tradicional dos arcozelenses.
Todavia,
no dizer de Pacheco (1986, p. 207) em Arcozelo “ […] as colmeias piscatórias da
Aguda e as cosmopolitas Granja e Miramar eram exceções […] “ ao ambiente rural
da freguesia.
Apesar
de grande parte da Granja pertencer a São Félix, há uma pequena faixa que ainda
faz parte de Arcozelo. A Granja, “muito bem frequentada” particularmente em
época balnear, como será referido na parte respeitante a São Félix. Deve, no
entanto, salientar-se a passagem por Arcozelo de alguns vultos importantes
como: Eça de Queirós (que, além da Granja, também esteve na Quinta de Enxomil),
o Dr. Paulo Falcão (Governador Civil do Porto depois de 1910), João Grave e
Alfredo Cortez (escritores), e ainda o arquiteto Oliveira Ferreira (que, mais
tarde, deu o seu nome à escola secundária de Arcozelo, escola que ora
frequentamos).
Na
freguesia, para além da Granja, uma outra localidade atraiu população de
elevada estirpe social, já que, como refere Pacheco (1986, p. 208) “ […]
Miramar, com belos chalets de praia,
ruas arborizadas e o Parque da Gândara […] “ era sobretudo local de frequência
balnear. Talvez por isso são referidos os “ chalets
de praia “. Miramar, embora frequentada pela alta sociedade, ao contrário do
que sucedia na Granja, onde ia a aristocracia, em Miramar predominava uma certa
burguesia endinheirada.
Outro
contraste com o ambiente rural e com as casas apalaçadas e os “chalets” de praia, eram as colmeias piscatórias da
Aguda, onde se praticava - e ainda se pratica - uma pesca tradicional. Porém,
com o passar dos anos assistiu-se à diminuição da mão-de-obra e da actividade
piscatória, fruto da emigração dos pescadores para a Europa, sobretudo para
países como a França, a Alemanha e a Holanda. A Aguda, mais precisamente nos
anos 20 e 30 do século XX, era uma verdadeira “ […] colmeia feita estância de
veraneio pela explosão das villas e chalets […] “, corroborando Pacheco
(1986, p. 208), destacando-se, nos dias de hoje, sobretudo pelo seu apelativo
litoral a nível turístico. A zona habitacional, atualmente também bastante
desenvolvida, sobressai em zonas um pouco mais afastadas do litoral. Para tal
contribuíram múltiplas ações que devolveram vida a edifícios abandonados, e se
preocuparam com a construção de zonas de lazer e de conhecimento do mar, tais
como o Parque da Aguda e a ELA - Estação Litoral da Aguda. Poderá, então,
concluir-se que, na Aguda, se verifica, nos dias de hoje, a convivência e o
entrecruzar de dois tipos sociais distintos. Um, o mais próximo do mar, onde se
localiza a comunidade de pescadores ainda existente, e um outro, o das
populações de classe média e média alta que habitam próximo da linha
ferroviária.
A
extensa e “boa” faixa litoral que a freguesia detém, motivou um grande
desenvolvimento das suas praias (Aguda, Miramar e uma parte da Granja),
contribuindo, deste modo, para uma maior atração turística. Talvez por esta
razão, o autarca de Arcozelo, António Amendoeira, tenha declarado ao Jornal de
Notícias em Outubro de 1997, que “ Arcozelo tem as melhores praias de Gaia […]
“.
Pode
constatar-se que todo este desenvolvimento propiciado pela “ […] urbanização
intensiva, industrialização e o alastrar da mentalidade urbana […] “ (Pacheco,
1986, p. 207) contribuiu para o eliminar de algumas tradições de há muito
enraizadas e para o transformar do ambiente rural de meados do século XX numa “
[…] das freguesias mais desenvolvidas de Gaia […] “, como é citado no artigo do
JN de Outubro de 1997.
Para
finalizar, pode acentuar-se que Arcozelo, elevada a vila em 1988, tem
demonstrado sinais de dinamismo e mudança, constituindo, assim, a mais urbana
das três freguesias em estudo.
Um relance sobre a vida económica da freguesia
de Arcozelo
Reportando-nos
apenas aos tempos presentes, pode dizer-se que a freguesia de Arcozelo
se caracteriza por uma notória evolução em termos de dinamismo e atividades
económicas nela existentes. Uma vez que em tempos idos , era uma
zona essencialmente rural, foi possível concluir, através de exemplos a seguir
explicitados, que Arcozelo se transformou numa área com um grande potencial a
nível industrial. A área do comércio vai adquirindo, também, importância com a
criação e desenvolvimento de estabelecimentos comerciais de um certo
reconhecimento. Esta região agrícola tornou-se, em suma, numa zona fortemente
industrializada, onde existem empresas tanto de nível nacional, como
internacional. Apesar disto, sem a projeção de outros tempos, Arcozelo conserva
ainda uma boa parcela de terreno agrícola, onde se cultiva o milho, a
hortaliça, a batata, a cebola…
Na
fruticultura destacam-se as produções de ananás e kiwi. Já na floricultura
proliferam, por sua vez, as estufas, onde crescem os cravos, os goivos, as
estrelícias, as dálias, entre muitas outras espécies.
Em tempos mais recuados… predominavam
·
O Mercado
da Aguda que ocupava uma área de 800 m2 junto à praia do lado sul
(Rua Alfredo Dias), acabou por ser um espaço substituído por casas
pré-fabricadas, habitadas por famílias de pescadores. Nunca chegou a funcionar
em pleno, porque os vendedores ambulantes preferiam vender os seus produtos
diretamente na rua, o que acontece ainda hoje. Mais recentemente, procedeu-se à
construção de um outro mercado, o Mercado de Levante.
·
Em
relação ao artesanato ,
pode dizer-se que foi ignorado durante muitos anos pelas populações que não se
apercebiam da riqueza da sua arte. Contudo, tem vindo a recuperar importância,
particularmente nas últimas décadas, através da organização de feiras,
exposições e outras manifestações de carácter popular. O artesanato tem como
variantes a criação de miniaturas regionais, de estatuetas de madeira e
trabalho em ferro
forjado (grades, portões, candeeiros, fogões de sala…).
·
Os tapetes
de Arraiolos constituíam um indústria de cariz familiar e artesanal, das
mais conhecidas da região, verificando-se uma proliferação de pequenos ateliers
de tapeçaria tipo Arraiolos. Inicialmente esta atividade era apenas exercida em
casa, nas horas vagas e pós-laborais, tendo sido só posteriormente
comercializada, em casas de especialidade.
·
Relativamente
ao Comércio e à Indústria, Arcozelo dizia respeito a uma região
essencialmente agrícola, ocupada por lavradores, caseiros e muitos trabalhadores
rurais. A Indústria limitava-se a pequenas oficinas de serralharia,
marcenaria, tapetes de Arraiolos e a algum artesanato, atividades estas
referidas anteriormente. A nível do Comércio existiam poucas mercearias
de bom nível, alguns talhos e pequenos estabelecimentos de mercearia-e-vinhos,
tascos e drogarias.
Nos últimos anos, a feição de Arcozelo foi mudando, aparecendo
sobretudo na zona nascente, diversas indústrias, destacando-se as seguintes…
·
Yazaki
Saltano que se dedica ao fabrico de
cabelagem para automóveis.
·
Cabelte, fábrica vocacionada para as telecomunicações
e umas das melhores apetrechadas da Europa.
·
Desco, fábrica de material eléctrico e electrónico.
A sua actividade principal é o fabrico de cabos de alimentação, fio eléctrico,
prolongadores, tomadas, fichas e enroladores destinados à indústria de
electrodomésticos.
·
Dat-Schaub, empresa que se dedica à indústria alimentar,
produzindo tripas para enchidos.
·
Progado, sociedade produtora de rações, ligada à
alimentação animal, à pecuária e à moagem de cereais.
·
Orni”ex”, ligada à produção, importação e exportação de
produtos para todo o tipo de animais de companhia.
·
Caves
Acácio, dedicada ao armazenamento e
comercialização de vinhos de mesa de tipos diversos como o Rose, Verde, Dão,
Douro e o da Bairrada no mercado nacional, assim como de aguardentes.
·
Pincéis
Universal, uma das mais conceituadas
marcas de pincéis do país que se tem, também, lançado no mercado internacional.
·
Fábrica
Miramar, empresa do ramo dos
pincéis, tendo sido a que mais trabalhadores empregou e a primeira a fabricar
rolos para pintura no país. A projeção da marca Miramar estendeu-se a vários
países europeus, assim como, para as antigas províncias ultramarinas (PALOP’S),
exportando os seus produtos essencialmente para estas das regiões. (*)
·
A
Renascença do Corvo,
serralharia que para além do trabalho vulgar em aço, metal e alumínio, tinha
uma vertente artística de construção em ferro forjado e
bronze. Os seus produtos alargaram-se a
todo o país, realizando-se obras de grande vulto, como os edifícios da Philips,
da Shell, do Banco Espírito Santo, do Banco Totta e & Açores, entre outros.
(*)
·
Serralharia Artística do Corvo, praticamente só dedicada à arte de construção
em ferro forjado.
(*)
·
Soarmoldes,
que fabricava moldes em aço
para a indústria de plásticos. (*)
·
Empresa têxtil Delfim Ferreira, que foi uma das mais modernas e qualificadas
empresas têxteis algodoeiras do país, até à década de 70. A partir dessa altura
entrou em declínio, tendo sido encerrada definitivamente em 1992. (*)
- Amendoeira, António
T. D. (1994).Vila de Arcozelo: História e Monografia. Edição do autor
patrocinada pela Junta de Freguesia e Câmara Municipal.
- Pacheco, Hélder.
(1986). O grande Porto: Gondomar, Maia, Matosinhos, Valongo, Vila Nova de
Gaia (1ª ed.). Lisboa: Presença.
Silva, João Belmiro
Pinto da, Gomes, Catarina Sofia e Costa, José Carlos. (1999). Vila Nova de
Gaia: a outra margem Douro. Paços de Ferreira: Anégia Editores.
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